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motivo_40_/ PELA REFUNDAÇÃO DA POLÍTICA_/

Nossa cidade não precisa ser a vitrine de um modelo equivocado de desenvolvimento, custe o que custar. Os cariocas não precisam ser reféns da chantagem.
Em conversas variadas – sobre economia, urbanismo ou cultura –, noto com frequência que uma chantagem está em curso no Rio de Janeiro. Ela diz mais ou menos o seguinte: ‘viu como estamos crescendo? Em time que está ganhando não se mexe; não é hora de aventuras. Se mudar agora, já viu…’. Essa chantagem vem decorada com cifras milionárias, com grandes obras, com megaeventos – como se o que realmente importasse para a cidade fosse ser ‘mega’. Ela ganha força ao lembrar de um Rio decadente, resultado de décadas de má administração. Se o marketing de Eduardo Paes fala de um Rio melhor, otimista, esperançoso, a mensagem na prática é outra: contentem-se, porque melhor que isso não fica.
De fato, para alguns não fica mesmo, mas para quem? Uma boa resposta está num recente artigo publicado no New York Times: ‘o Rio de Janeiro está se tornando um playground para ricos.’ Marcelo Freixo vem constantemente alertando sobre a despolitização do prefeito, sobre sua transformação numa espécie de megassíndico (é tudo ‘mega’, afinal). Que administrar bem é fundamental, não se discute, mas mais fundamental ainda é a pergunta: administrar o quê? Essa pergunta só ganha sentido através da política, que é o meio pelo qual a cidade pode perguntar o que ela quer para si mesma – o que nós queremos. Se esquecemos de fazer essa pergunta, as respostas vêm prontas. Megaespeculadores, por exemplo, sabem exatamente o que querem para cidade: que ela seja um playground de regras frouxas, onde o jogo especulativo possa correr solto. Na falta de vontade e imaginação política, a especialidade do poder público no Rio de Janeiro hoje é de fato administrar: administrar esse jogo especulativo, tal qual um banco administra seus fundos de investimentos.
Não basta gerir; é necessário também gestar. E o que a candidatura Freixo propõe de mais importante é a gestação de um novo projeto político. Esse projeto é novo justamente porque toma a cidade como seu berço. Basta comparar com o que acontece nesse momento em São Paulo, uma cidade onde a política local virou mera extensão do tabuleiro nacional. Enfrentam-se por lá um candidato caduco, com histórico de usar a prefeitura como mero trampolim para outras ambições, e um candidato imposto de cima pra baixo pela cúpula nacional do PT, contrariando a tradição orgânica do próprio partido (não é de se espantar que, num ambiente tão politicamente desolador, a terceira via seja uma inacreditável reencarnação do malufismo).
A candidatura Freixo propõe que se refunde a política no sentido oposto, ou seja, de baixo para cima. Que a cidade seja pensada em conjunto com o fermento de suas diversas forças locais, sem se deixar conformar às cartas marcadas da política nacional. E, pensando grande, propõe até mesmo que essas cartas sejam desmarcadas. É nesse sentido que a cidade pode ser o berço de uma nova prática política. O Rio pode não ser mais a capital do país, mas ganhou um novo e incômodo protagonismo: o de emblema maior, de cidade-marca da nova inserção internacional do Brasil. Digo que esse protagonismo é incômodo pois ele alimenta a onda especulativa que assola a cidade. Mas, por outro lado, isso também significa que os dilemas urbanos do Rio tornaram-se um resumo de certas questões nacionais e que, por isso mesmo, uma virada política aqui, nesse momento, pode ganhar amplitude e apontar um novo norte para a imaginação política brasileira como um todo.
Ao reconhecer e enfrentar esses dilemas, ao invés de simplesmente surfar uma onda fadada a arrebentar mais cedo ou mais tarde, Freixo propõe que saiamos do transe: nossa cidade não precisa ser a vitrine de um modelo equivocado de desenvolvimento, custe o que custar. Não precisamos ser reféns da chantagem. Estou convicto de que essa é a eleição mais importante dos últimos tempos, e isso porque, com Marcelo Freixo, temos a chance de fazer do Rio de Janeiro o ponto de partida para uma nova imaginação política, com P maiúsculo.
SÉRGIO MARTINS É CRÍTICO E HISTORIADOR DA ARTE E VEM PARTICIPANDO DE DEBATES SOBRE IDEOLOGIA, POLÍTICA E ESPAÇO URBANO.