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motivo_12_/ PELO FIM DA REPRESSÃO HIGIENIZADORA_/

Eu quero o convívio urbano e as ruas pacificadas. E rua pacificada não é rua vazia de gente, onde prevaleça  a ordem do choque.
Quando ouço falar em choque de ordem, modernização do Maracanã, ordenação das torcidas nos estádios, Cidade Olímpica, remoção de favelas e quejandos, me ocorre o seguinte: os responsáveis pelas políticas públicas têm alguma dimensão sobre o que significa, do ponto de vista cultural, a relação entre legalidade e ilegalidade por aqui? O discurso higienizador da atual administração da cidade sabe lá o que é isso?
O povo do Rio bateu tambor em fundo de quintal, jogou capoeira, botou o bloco na rua, a cadeira na calçada, o despacho na esquina, a oferenda na mata, a bola na rede e o mel de Oxum na cachoeira. Excluído dos salões do poder, o carioca inventou o ano novo na praia, zuelando atabaques em louvor a Iemanjá, Janaína, Yara e Kianda.
Ao inventar a cidade [e a cidadania] que lhe foi negada, o carioca criou esse modo de ser que atropela convenções, confunde, seduz, agride e comove. Qualquer tentativa de ordem pública deve partir desse pressuposto para cerzir as instâncias de interlocução e fomento de diálogos entre a população e o poder instituído. Nós somos o povo que bateu tambor na fresta e criou a subversão pela festa.
Eu quero o convívio urbano e as ruas pacificadas. E rua pacificada é rua cheia, não é rua vazia de gente onde vez por outra se escutam tiros ou onde prevaleça a bandidagem mais deslavada ou a ordem do choque. Todos os que encaram a cidade fomentando o individualismo mais tacanho e o clima de desconfiança entre seus habitantes, prestam um desserviço. As políticas públicas que neguem nossa peculiaridade e atuem pelo viés da repressão higienizadora são fadadas ao mais retumbante fracasso.
Peço apenas isso: Que se reflita sobre a atuação e o papel de um administrador público sem se perder a dimensão profunda do que nós, os cariocas, somos e construímos no tempo e no espaço. Administrar uma cidade, falar sobre uma cidade, escrever sobre ela, propor políticas públicas, implica conhecimento, reflexão, amor e interação com os seus modos de recriação da vida e produção de cultura, função que nos faz humanos e nos redime do absurdo da morte.
Eu continuarei daqui, dessa parte que me cabe no latifúndio, a bradar louvores por uma civilização peculiar. A civilização que Pixinguinha, Paulo da Portela, Cunhambebe, Cartola, Noel Rosa, Bide, o Caboclo das Sete Encruzilhadas, Tia Ciata, Meia Noite, Madame Satã, Lima Barreto, Paula Brito, Marques Rebelo, Manduca da Praia, Silas, Anescar, Dona Fia, Fio Maravilha, Leônidas da Silva, Di Cavalcanti, os judeus da Praça Onze, a pomba gira cigana, a escrava Anastácia, o Zé das Couves, o vendedor de mate, o apontador do bicho, o professor, o aluno, o gari, os líderes anarquistas da greve de 1919, a Banda do Corpo de Bombeiros, a torcida do Flamengo, o pó de arroz, a cachorrada, a nau do Almirante, o Bafo da Onça, o Cacique de Ramos, o Domingo de Ramos, a festa da Penha, a festa na laje e a cerveja, criaram nesse extremo ocidente. Com baixaria na sétima corda.
É por enxergar a cidade e a nossa gente desta maneira que votarei em Marcelo Freixo para prefeito do Rio de Janeiro em 2012.
PROFESSOR DE HISTÓRIA, CO-AUTOR DO LIVRO “SAMBA DE ENREDO, HISTÓRIA E ARTE“, LUIZ ANTONIO SIMAS É PESQUISADOR DA CULTURA POPULAR CARIOCA, MAIS ESPECIFICAMENTE NOS CAMPOS DO FUTEBOL E DA MÚSICA POPULAR. FOI O RESPONSÁVEL PELA PESQUISA DA EXPOSIÇÃO TODAS AS COPAS, EVENTO REALIZADO NO BRASIL E NOS ESTADOS UNIDOS DURANTE A COPA DO MUNDO DE 1994.