Home
 

motivo_11_/ PELA CULTURA E SEM RECOMPEN$A_/

Se eles são 300, nós somos 15 mil. Nós que corremos por fora por acreditar que a cultura pode transformar a realidade social dessa cidade.    
    No dia 23 de setembro de 2012  foi publicado na internet um manifesto com mais de 300 assinaturas de apoio a reeleição do prefeito Eduardo Paes. Entre os assinantes podemos ver grandes nomes do setor cultural carioca. Não vamos discutir aqui se foram comprados todos eles ou não. O importante é que se posicionaram e pararam de fingir que o Rio de Janeiro não vive hoje um momento ímpar em sua história, seja pelo pacote dos mega eventos (os grandes investimentos e as atrocidades sociais) ou seja pelo posicionamento político da juventude carioca. Pelo menos o momento político já sabe que vai ser lembrado amanhã como o mais importante da década na cidade, e o primeiro de muitos que virão ao longo do século XXI. Enquanto dos megaeventos a gente já não sabe o que esperar, mas também será lembrado amanhã por ser o segundo grande processo de gentrificação escancarado nos últimos 100 anos.
     
    Bom, dentre os 300 nomes, artistas globais, sucessos de hoje e de ontem, algumas lendas vivas da arte brasileira,  intelectuais renomados, grandes empresários da cultura privada e gestores de grandes projetos culturais que envolvem da classe A à classe C. Da maioria deles a gente não esperava nada por serem declaradamente adeptos do conforto e da bolha, agora o que surpreende é ver  os nomes daqueles que a gente achava que morreriam lutando por tirar as pessoas da zona de conforto . Não pelo fato de não terem o mesmo voto que nós, e sim pelo fato de apoiar aquele manifesto mentiroso e cara de pau, por um Rio “mais justo, humano e feliz” demolindo casas e removendo milhares de famílias igual a lixo, dando um show de corrupção e ligações sujas com gastos públicos e lucros privados.  É esse o Rio que eles querem ou fingem querer a troco de serem contemplados amanhã ou agradecendo por terem sido contemplados ontem. Esse manifesto cria uma coligação espúria na cultura semelhante aquela que 20 partidos fizeram na política afim de reeleger Eduardo Paes.
     
    Essa coligação cultural (de nomes, empresas e ideias) detém boa parte do dinheiro investido no setor cultural na cidade, e graças a boa parte deles o cenário cultural está do jeito que está (desarticulado e elitista). O “orçamento duplicou” eles alegam, mas a distribuição desse orçamento continua dirigida aos selecionados de sempre. Reforçam a ideia da campanha milionária (150 milhões, campeã!) que o prefeito está fazendo. Onde tudo está limpo e bonito, e todo mundo sorri. Pois é claro, não à toa o manifesto foi criado por cineastas que continuam vivendo dentro da bolha de fantasia em que estão inseridos. Esse manifesto é um reflexo do cenário artístico, cultural e intelectual da cidade, cada vez mais refém de seus patrocinadores e distantes da sociedade e de suas causas. A arte não está mais para o povo, e sim para o estado-empresa público-privado.
     
    Dizem que só o Paes fez e apresentou propostas pela cultura. Sem precisar falar da absurda proibição da rua para os artistas (depois revogada após forte reação, porque afinal era ano eleitoral), de ser contra as Lan Houses e de todas as restrições à cultura relacionadas a UPP e o CHOQUE DE ORDEM. Eles ainda esquecem que toda a sujeira que ele faz nos setores de saúde, transporte, educação e segurança envolvem CULTURA. Assinam embaixo de um manifesto que diz que a cidade não está mais partida, mas ignoram que milhares de famílias estão sendo retiradas de suas PRÓPRIAS CASAS e sendo REMOVIDAS para conjuntos habitacionais a 20 km do lugar de onde vivem e têm seus círculos sociais e profissionais. Vão me dizer que isso não envolve CULTURA? E todas as ligações sujas com as empresas, milícias e magnatas. Tudo isso não envolve cultura? Ou cultura só compreende investimento em aparelhos e projetos? Nem todo mundo naquela lista é bobo, mas por algum motivo se curvou e assinou embaixo daquela desfaçatez. Eles amanhã vão olhar pra trás e ver o tamanho da merda que fizeram.
     
    Nós que corremos por fora de alguma forma nessa história toda – seja pelos sobrenomes desconhecidos ou por acreditar que a cultura pode transformar a realidade social dessa cidade – deveríamos também fazer o nosso manifesto.  Nós que estamos com o pé no chão, e trocando sorrisos ao invés de contratos. Nós que através da cultura atuamos politicamente (sem partidos). Nós que não temos medo de não estar entre os “contemplados”. Nós que vamos continuar fazendo pela cultura independentemente de quem vai estar no cargo, sem que para isso precisemos ser bajuladores. Nós artistas, produtores, agentes, ativistas e militantes culturais, enfim, atores políticos/sociais/culturais dessa cidade que somos contra os absurdos que essa corja formada pelo governo estadual, a prefeitura municipal e todos os fdp de empresas privadas metidos em toda essa sujeira.
     
    Nós que queremos, de fato, um Rio mais justo, humano e feliz, podemos ajudar a construir isso. Precisamos saber quem somos, e nos reconhecer uns aos outros. Saber quem faz por acreditar e quem faz tão só por dinheiro. Todos temos “barrigas para encher e filhos para criar” e nem por isso temos que vender a nossa alma e a nossa palavra, que é o bem humano mais valioso. O Marcelo Freixo precisa saber (e sabe) que existem militantes, artistas, ativistas, celebridades, empresários, produtores, gestores e atores do setor cultural sem o rabo preso, e que fecham com ele e que sonham em construir coletivamente – com a sociedade e não com as empresas privadas – essa nova cidade.
     
    Se eles são 300, nós somos 15 mil. A gente vai fazer o que tiver que fazer até debaixo de chuva.
     
    CARLOS E PABLO MEIJUEIRO SÃO ATIVISTAS DO NORTE COMUM E MILITANTES DA CULTURA.