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motivo_02_/ PELO FIM DA PRIVATIZAÇÃO DO ESPAÇO PÚBLICO_/

Se uma marca assume funções do governo, este não está fazendo o que deve e está vendendo a solução em benefício próprio.
Pouco tempo atrás, fiz um curso de branding. Em uma das aulas, o professor elogiou a iniciativa da Vale em desenvolver vários setores da economia local e citou a possibilidade da Nike patrocinar quadras no Aterro do Flamengo. Quando eu disse que eu era contrário à privatização do espaço público, todos me olharam como profanasse o nome de Jesus na basílica.
Pois é, trabalho com propaganda mas não quero viver dentro dela. Quando uma marca assume o que deve ser feito pelo governo, significa que o governo não está fazendo o que deve e está vendendo a solução em benefício próprio. Quando os eventos assumem nomes de bebida, não têm fundamento social ou expressão artística.
As consequências mais latentes das ligações perigosas do público com o privado foram vistas na Bolívia, quando uma marca de água conseguiu a proibição de coleta de água natural da chuva. Ou nos EUA, onde, nas cantinas dos colégios onde as quadras foram patrocinadas pela CocaCola, é proibido se vender outras bebidas.
Recentemente, na Argentina, marcas americanas foram rechaçadas. As pessoas acham que por orgulho argentino, mas não é. Muitas dessas marcas apoiaram governos ditatoriais, assim como aqui no Brasil. Muitas empregam trabalho semi-escravo em países subdesenvolvidos. O mundo inteiro está se rebelando contra esta subserviência às empresas privadas. São questões tratadas por estudiosos e ativistas de grande renome internacional, como Naomi Klein (autora do livro “No Logo”), ou pelo movimento AdBusters.
No Brasil, ninguém se pergunta por que não temos uma marca brasileira de carro, o que aconteceu com o Gurgel, etc? Não fabricamos nada. Temos excelentes engenheiros, uma das melhores escolas de engenharia mecânica, designers, a matéria prima, mas nenhuma marca de motor ou carro. O governo não cria nenhum incentivo à produção nacional, apenas impostos. Outro dia o âncora do Jornal da Globo justificava isso como algo natural numa economia globalizada. Vendem a todos esse discurso da inevitabilidade. As grandes corporações transnacionais mandam no mundo.
O mundo ficou assim em consequência deste modelo de governança comprometido com os interesses do setor privado, o mesmo modelo que define a gestão Eduardo Paes: o “síndico” que, mesmo cobrando altos impostos, sucateia e abandona a cidade, para depois vender a privatização como solução mágica para todos os seus problemas. Para evitar o estigma da palavra, usa o eufemismo preferido de sua gestão: “parceria público-privada”.
Quero um Rio produtivo para o carioca. Quero as empresas, as confecções, as gráficas de volta. Não quero italianos hoteleiros, nem espanhóis fazedores de orla, nem estádios de futebol. Quero escola para que as crianças um dia possam ler as bulas dos medicamentos, hospitais para os enfermos, a extinção das milícias. Tudo aquilo que é a última prioridade do setor privado, e de seu fantoche, Eduardo Paes.
Por tudo isso, escolho o outro caminho, o caminho mostrado por Marcelo Freixo.
FERNANDO SALLES É DESIGNER.